Militares afirmam ter prendido presidente em tentativa de golpe na Guiné

Soldados por trás do motim disseram ter tomado o poder e dissolvido a Constituição do país africano

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Uma tentativa de golpe de Estado contra o governo da Guiné provocou tiroteios perto do palácio presidencial, na capital, Conacri, neste domingo (5). Em um pronunciamento na TV estatal, soldados por trás do motim disseram ter tomado o poder e dissolvido a Constituição do país africano.
 
“Decidimos suprimir a Constituição em vigor, dissolver as instituições e também o governo, assim como fechar fronteiras terrestres e aéreas”, disse Mamady Doumbouya, comandante de um grupo de elite do Exército, em transmissão que interrompeu a programação habitual do canal. “Iremos reescrever a Constituição juntos”.
 
De acordo com ele, que discursou envolvido por uma bandeira do país e cercado por outros oito soldados, o presidente Alpha Condé havia sido preso e estava em posse do grupo, sem ferimentos. Não estava claro, porém, o paradeiro oficial do mandatário -vídeos publicados nas redes sociais o mostraram cercado por militares, de jeans e camisa, recusando-se a falar. As agências de notícias não conseguiram confirmar a autenticidade das imagens.
 
O movimento, segundo Doumbouya, teria sido motivado pelo que ele chamou de caos no país, citando também a pobreza e a corrupção endêmica. À noite (final da tarde no Brasil), o grupo disse que governantes regionais foram substituídos por militares e que uma reunião seria feita no Parlamento local nesta segunda-feira (6) -quem não comparecer será considerado rebelde, segundo a junta.
 
Nesse mesmo pronunciamento, os insurgentes anunciaram um toque de recolher nacional “até segundo ordem”.
 
O Ministério da Defesa da Guiné, por outro lado, mais cedo havia afirmado em um comunicado que as forças de segurança contiveram a tentativa de golpe. “Os insurgentes espalharam o medo [em Conacri]”, diz o texto. “A guarda presidencial, apoiada por forças de defesa e segurança, leais e republicanos, contiveram a ameaça e repeliram o grupo agressor.”
 
Moradores de Conacri relataram às agências de notícias terem visto jipes, com militares atirando para o alto e sendo apoiados por buzinas de motociclistas e gritos de “Guiné livre” das janelas. A embaixada britânica na capital do país africano emitiu um comunicado alertando para os registros de tiroteio e pedindo aos seus cidadãos que ficassem alertas e evitassem sair de casa.
 
À AFP um morador da região de Kalum, onde estão o palácio presidencial e outros escritórios do governo, contou que soldados pediram às pessoas que não saíssem às ruas.
Os insurgentes teriam feito outras prisões, incluindo altas autoridades do governo de Condé.
 
O secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), António Guterres, criticou o que chamou de tentativa de golpe de Estado. “Condeno firmemente qualquer tomada do poder [na Guiné] pela força do fuzil e peço a libertação imediata do presidente Alpha Condé”, disse, em nas redes sociais.
 
O movimento também foi condenado por atores regionais. A chancelaria da Nigéria disse que o aparente golpe de Estado viola as regras da Comunidade Econômica de Estados do Oeste Africano (Ecowas, na sigla em inglês) e pediu a restituição da ordem constitucional.
 
A própria Ecowas, por meio de seu líder, o presidente de Gana, Nana Akuffo-Addo, ameaçou impor sanções à Guiné. A União Africana também pediu a liberação de Condé e informou que deve convocar uma reunião sobre o assunto para discutir “medidas apropriadas” de reação.
 
À Reuters a cientista política americana Alexis Arieff destacou que o movimento deste domingo se soma a outros retrocessos democráticos no oeste africano, que incluem golpes no Mali e no Chade, além de manobras constitucionais para líderes permanecerem no poder na Costa do Marfim e, tocada por Condé, na própria Guiné.
 
O país tem enfrentado uma grave crise política e econômica nos últimos meses, agravada pela pandemia de Covid-19 -de acordo com dados oficiais enviados à OMS (Organização Mundial da Saúde), o país registrou quase 30 mil casos e 341 mortes pela doença.
 
Recentemente Condé elevou impostos e o preço dos combustíveis buscando aumentar a arrecadação federal, o que desencadeou uma nova onda de protestos. Manifestações violentas já haviam atingido o país em outubro do ano passado, quando o presidente garantiu seu terceiro mandato após uma manobra para poder concorrer.
 
Ele alegou que um referendo constitucional reiniciou a contagem do limite de dois mandatos aos quais ele teria direito. A eleição ainda foi marcada por denúncias de irregularidades, feitas pelo principal opositor, Cellou Dalein Diallo, e outros três candidatos. Condé teve 59,5% dos votos. À época, os protestos registraram dezenas de mortos e cortes no serviço de internet.
 
​Condé, um ex-líder da oposição que chegou a ser condenado à morte em 1970 pelo marxista Sekou Touré, chegou ao poder em 2010, tornando-se o primeiro presidente eleito democraticamente no país, após décadas de regimes autoritários e golpes de Estado. Ele chegou a dizer em entrevistas que queria ser uma mistura de Nelson Mandela e Barack Obama, para transformar o país em uma democracia estável e potência econômica.
 
Ele foi reeleito em 2015, pouco tempo depois de ter que administrar a crise da epidemia de ebola. No ano passado, ele foi reconduzido novamente ao cargo.
 
Apesar dos ganhos econômicos do país, sustentados pela exploração de minérios, Condé era acusado de uma guinada autoritária e de perseguição a dissidentes.

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